Uma velhinha que mora na minha rua sempre me causou um misto de simpatia, curiosidade e aversão. Ela anda devagar, com passinhos curtos e meio inseguros. Faz aquele tipo que a gente só vê na roça. Mulher com bigode, barba, óculos grossos e linguajar um pouco chulo. Costuma estar na porta da garagem quando saio pela manhã, esperando uma chance de entrar e conversar com a costureira que tem um atelier no porão. Não sei se ela não se arrisca a chamar, não sei se a costureira finge não escutar, não sei se ela chama em tom muito baixo. Fato é que muitas vezes, quase sempre atrasado, fico um pouco impaciente e sem graça de abrir o portão, esperar com que ela me dê espaço para abrir as abas de aço que fecham a calçada, dando seus curtos passinhos em marcha-ré e, depois permitir sua entrada sem ter autorização da costureira. Às vezes acho que ela fica me esperando. Talvez para entrar sem autorização… não quero pensar em outros motivos…
Mas a questão é que hoje eu acordei mais cedo do que queria. Os sábados de verão no meu bairro não são muito adequados para quem gosta de dormir. Da cama eu ouvia o barulho do caminhão de gás e aquela sua terrível música de espera-de-telefone-dos-anos-setenta (uma super-kistch caixinha de plástico azul, com um lugar para por o gancho do telefone, que era na época objeto de orgulho na casa da minha mãe), auto-falantes imensos nos carros que passavam tocando funk, trabalhadores e bêbados gritando juntos no boteco de frente, bebendo por motivos diferentes desde as nove da manhã. Além disso, minha gata recém-castrada, me oferecia toda a sua auto-suficiência felina, encostada nas minhas costas sonolentas, mexendo-se insuportavelmente segundo os movimentos provocados pelo seu banho de língua detestável.
Levantei-me com uma preguiça tamanha que me deixava sem outra alternativa senão ir ao boteco da esquina para tomar um café e comprar cigarros. Abri a porta e me deparei com a velhinha, Dona Elza.
- Bom dia Dona Elza!
- Bom dia meu filho, você poderia me ajudar a atravessar a rua?
Eu quase não acreditei no que ouvia. Acho que a última vez que vi isso foi em uma revistinha dos sobrinhos do Pato Donald. Aliás esses estranhos patinhos órfãos (suponho que o sejam pois moram com o tio meio louco), acabaram por me influenciar muito, e contra a minha vontade, nessa história de ter que fazer uma “boa ação” todos os dias. Que inferno! Velhinhas não ficam ali esperando passar alguém que lhes ajude a atravessar! Que coisa mais antiga! Mas foi assim…
Sem escapatória estendi meu braço para a Dona Elza, que iniciou comigo a travessia da rua, com seus passinhos meio irritantes. Tão longa foi a travessia que pudemos conversar bastante. Ela me contou que momentos atrás havia pedido a uma moça que passava que a ajudasse no empreendimento. Vendo-a tremer e balbuciar, a moça soltou: – Vê se eu vou perder meu tempo com uma velhinha bêbada que nem consegue atravessar a rua!
Meu coração se partiu e a partir daí ela virou a minha velhinha, principalmente quando me contou sua resposta:
- É, estou bêbada mesmo, bebi a cachaça da sua mãe! Ela não te contou? E vai tomar suco de fruta no pomar (licença poética).
Eu puxei mais assunto porque a essa altura o cérebro começava a pegar no tranco e, eu voltava a me interessar muito por humanos.
- Muito estranho ficar velho a ponto de depender das pessoas, ela disse.
Completamente sem argumentos eu respondi sem convicção: – Mas a senhora está ótima Dona Elza! E o que tem de mal em precisar um pouquinho do outro? (ainda bem que Sartre está morto).
- Ah! Já passei por muita coisa… afinal 77 não são 2 anos, não é meu filho?
Apesar de pensar internamente que ela tinha mais que 77, concordei com um grunhido – Aham! É estranho mas, à medida em que o tempo passa, tenho achado os velhos menos velhos… isso é incrível!
- Espera aí Dona Elza, vou entrar no bar e volto logo para te buscar (a casa de rações, vulgo pet shop, onde ela ia estava fechada). Julguei que não seria digno a minha velhinha entrar comigo naquele lugar cheio de bêbados e loucos… (me ensinaram a pensar que mulheres dignas não fazem isso e, o pior é que eu continuo acreditando).
Tomei um café rápido, queimando os lábios, comprei os famigerados cigarros, acendi logo um matinal e voltei para a Dona Elza. Estendi o braço, ao que ela imediatamente correspondeu me enlaçando. Nesse instante, um casal de mega-velhinhos, desses bonitinhos que ainda são casal afetuoso e que nos assustam por isso, cruzou a rua e chegou diante de nós.
O velhinho com a melhor das caras que se pode ter numa manhã de sábado exclamou:
- Hoje você está de namorado! E deu uma enorme gargalhada que mostrou todos os dentes brancos de sua dentadura de última geração. A velhinha do lado dele esboçou um sorriso tão cúmplice que me causou calafrios só de pensar em compará-la com as minhas companheiras passadas ou futuras.
- É, hoje arranjei um namorado… Respondeu Dona Elza com certa empáfia.
Atravessamos a rua novamente e chegamos à porta do meu prédio. Me despedi de Dona Elza, sem saber ao certo quem tinha ajudado quem a atravessar a rua. Na despedida ela disse:
- Sabe meu filho, na verdade eu tomo mesmo minhas cachaçinhas… de vez em quando…. Mas fico lá em casa, prefiro beber sozinha… não saio na rua para importunar as pessoas. Meu remédio é que não está fazendo efeito, por isso fico assim tremendo e meio tonta…
- Bom dia, Dona Elza.
- Obrigada meu filho!

Ha, conheco sua namorada insolita. Uma vez, ela me pediu p/ leva-la na casa do vizinho pq precisava de uma muda de Picao…
Moral das Estorias:
“Até hoje nunca encontrei um homem sem humor que tenha compreendido a dialética de Hegel”
(Bertolt Brecht)
Baby, que lindo. Attraversiamo.