Só me animei a escrever este post porque a metáfora é para mim irresistível. Onde o pagode chinês e o pagode brasileiro de encontram?

Não sem algum constrangimento me atrevo a discorrer um pouco sobre um tema que tem me incomodado bastante: a invasão de produtos chineses e seu efeito devastador sobre alguns setores da nossa economia. Sinto algum constrangimento porque este discurso tende a ser confundido com uma certa “choradeira” de empresários que estão perdendo espaço por falta de competitividade, o que “ainda” não é o meu caso.

Sem ter a pretensão de fazer um tratado sobre o assunto e sem querer ser chato e anacrônico, prefiro ficar no bom humor. Por isso resolvi fazer uma comparação entre os pagodes, seus produtores, distribuidores e consumidores.

O pagode brasileiro como gênero musical (sei que existem exceções) é aqui traduzido como a música pop avassaladora e em geral ruim – ao lado de certos funks, axés e breganejos (ou breganojos?) – que sou obrigado a ouvir retumbando dos “carros-bomba” que circulam em quase todos os bairros, de quase todas as cidades brasileiras. Esta música que alguns adoram – tanto que ainda existe e faz sucesso – é na maioria das vezes invasiva e pernóstica no sentido de nivelar por baixo tudo o que é consumido, principalmente pelas classes menos favorecidas. Esta invasão, quando atinge os meios de comunicação, acaba por tirar espaço dos competidores: autores e intérpretes de outros tipos de música, principalmente as mais elaboradas e de consumo menos óbvio.

O “pagode chinês” – ou a invasão dos produtos chineses – tem produzido o mesmo efeito em certos setores, mesmo que com exceções de qualidade que não vem ao caso nesse momento.

Claro que estou “forçando a metalinguagem” e demonstrando uma opinião que nem de longe é politicamente correta, que pode soar um tanto ufanista, nacionalista, revanchista ou qualquer outro “ista” que alguém queira inventar.

O pagode chinês invasivo tem muitas explicações. Das mais tenebrosas, à alta tecnologia e competência. É difícil não listar todos os atributos que tenho ouvido e falado a esse respeito: trabalho semi-escravo, câmbio artificialmente desvalorizado, política de Estado chinesa (desoneração da cadeia produtiva), falta de preocupação com o meio ambiente, opressão política, étnica, humana e cultural etc, etc, etc. Claro que ao lado disso vem a economia de escala (e que escala! Mais de um bilhão e meio de habitantes!), a tecnologia, a eficiência, a capacidade de trabalho e produção. Mas apesar desta contradição, seu barulho me incomoda. E me incomoda não somente pela invasão ou pelo invasor, mas pela permissividade mostrada pelo invadido – nesse caso o brasileiro. E não falo somente do consumidor, mas também e, principalmente, dos empresários – tanto os importadores distribuidores quanto os competidores internos.

Não bastassem as dificuldades de concorrência (que deixo para os economistas explicarem), existem milhares de denúncias contra alguns importadores nacionais, acusados de subfaturar suas importações para pagarem menos impostos.

A questão é que existe consumo para tudo isso, mas um consumo que eu diria “inconsciente e inconsequente”. Daí tudo fica ainda mais difícil e estranho.

Da mesma forma que os idiotas proprietários dos carros-bomba nos impõem o som que gostam e julgam contemporâneo (ou na moda se preferirem), estes importadores corruptos e inconseqüentes nos impõem uma concorrência desleal já que além de se fazerem valer da indecifrável fórmula de competitividade do país de origem, distribuem os produtos chineses sem pagar os impostos pertinentes, eliminando aqui a concorrência, os empregos, a renda e a arrecadação fazendária, que em última análise compromete os serviços (a merenda das crianças, sic!) e os investimentos feitos pelo Estado brasileiro – talvez também deixem menos recursos para a corrupção política, mas esse é tema para outro post.

Não é possível condenar implacavelmente o consumidor, mesmo que ele atue de forma inconseqüente. Existem mil razões sociológicas para explicar esse tipo de consumo. Mas é possível condenar sem piedade este tipo especial de distribuidor corrupto, proprietário de “empresas-bomba” que nos obrigam a conviver com uma realidade econômica artificial, que não deixa espaço para a que criatividade e competência brasileiras floresça e prospere.

Da mesma maneira também condeno os competidores (ouvintes de outros tipos de música) que se calam diante desta sinistra realidade, assimilam suas perdas, contabilizam suas baixas e se recolhem no seu ostracismo (ou obsolescência).

Por isso acho melhor colocar um pagode no som pouco potente do meu carro e relaxar. Acho mesmo que eu deveria trocar meu equipamento, por um desses super potentes, mais caros que o próprio carro. Quem sabe assim, o meu auto-engano me produza algum estado de torpor (deve ser o que sente um dono de carro-bomba) que me permita não explodir meus tímpanos, viver como um nababo por mais algum tempo, sem pensar nas gerações futuras do meu nosso país, na cultura, na civilidade e, não enxergar o horizonte próximo… o próximo imperialismo?